Razão e devoção

DSC_0706Por Zulmara Maria

A geração de meu pai, que foi jovem na metade do século passado, pregava que “religião, futebol e política não se discute”. Foi uma sábia geração no ato de conservar amizades.
Em tempos de novo milênio, muitas coisas mudaram. As amizades ficaram coloridas, eventuais, sociais, com menos espaço para as verdadeiras e duradouras. Mas, ainda vale a premissa da religião, da política e do futebol – melhor não discutir. Cada um tem sua devoção. Por mais que argumente, não consegue convencer o outro. A tentativa de impor seu pensamento pode fragilizar o fio da amizade.
Eu mesma evito comentar sobre estes assuntos, principalmente em redes sociais. Faço o mínimo, como enaltecer a vitória do meu time ou me manifestar a respeito de algum acontecimento político de grande repercussão. Com isto, já entro na mira dos amigos da controvérsia, sempre prontos a replicar. Daí para uma tréplica, um passo. Mais outro, e vira discussão. Uma discussão sem fim. Perde-se o amigo, mas nunca a razão.
Em religião nada é certo. Pode-se acreditar ou duvidar do que bem entender. Somente ao final de tudo saberemos quem tinha razão. Em política, melhor não acreditar demais. É um jogo de azar. Sempre se pode perder até a última ficha. E diferenças no futebol costumam ser minimizadas com o tempo, ainda mais se os gladiadores gostam de tomar uma cervejada juntos.
Preservar os amigos é sinal de saber. Saber quem te ampara na hora difícil. Saber quem paga tua conta no bar quando estás quebrado. Saber quem te carrega para casa depois da bebedeira. Saber que certos assuntos é melhor deixar quieto. E lembrar que, se tua casa cair, nem o Pastor, nem o Chefe do Executivo, nem o craque do time vão te dar abrigo. Talvez um ou dois daqueles amigos que não concordam com tuas idéias, mas te respeitam e admiram.

A geração de meu pai pregava ainda, entre tantas outras coisas, que “automóvel, arma de fogo e mulher não se empresta a ninguém”. Provavelmente por saberem que os três tinham o mesmo poder de destruição. E, convenhamos, mulher já não é propriedade masculina desde quando meu velho ainda era jovem! Mas isso já é assunto para outra crônica.

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