A volta ao velho bar

Por Antônio Maria

Há mais de cinco anos que aqui não botava os pés. Volto, hoje, mais magro, mais careca e o bar não é o mesmo. O aquário, com seus peixes-boas-vidas, dormindo, namorando, brincando de pegar uns aos outros. Um deles era gordo e tinha a barriga lisa. Chamavam-no de Antônio Maria. Adiante, o piano, ao pé do qual, após o quinto uísque, eu cantava um samba de Caymmi. “Desde ontem, que não vejo o meu amor….até parece um ano de sofrimento”. Lembro-de um 14 de julho, quando em homenagem à dona da casa (francesa), cantei a letra inteira da Marselhesa.

De outra vez, cheguei aos pedaços de uma viagem a São Paulo. Estendi-me num sofá e acordei com o dia alto e uma rapaziada, que eu nunca vira, espanando as mesas e a mim, cobertos de poeira. No dia seguinte ao em que fiz Ninguém me ama, vim ensinar a melodia ao Christie, que tocava piano de ouvido. Ele fez a primeira inglesa dessa canção já esquecida. A freguesia era outra. Nenhuma das pessoas que sentam hoje, com exceção do Braga, era cliente naquela época.

Ali, na mesa escanteada, Caymmi gostava de ficar, horas a fio, contando histórias lentas do seu pai baiano. Nunca vi um pai com tantas histórias. Uma delas, eu pedia sempre que repetisse. No dia em que Caymmy fez dezoito anos, o velho Durval entregou-lhe uma par de botinas e disse solenemente ao poeta: “Vá ao mundo e faça-se homem”. A Cristo não deram botinas. Fez o mundo descalço. O poeta Evaldo Rui, já morto, falava rouco e cantava o seu Saia do meu caminho, naquela cadeira mais alta do bar. Cantava com a mão na boca, como se confiasse um segredo. Uma noite trouxeram-lhe uma nota maior do que a esperada. O poeta gritou a frase, hoje nos anais da vida noturna. “Ou tira o couvert ou traz o lápis!”

Apolinário 1

Nora Nei estava aparecendo, gravara o Menino grande, o Quanto tempo faz e ensaiava comigo a maneira conversada de dizer o “Ninguém me ama”. De vez em quando vinha um paulista amigo. O casal Luis Coelho, o grandalhão (de corpo e alma) Luis Ramos. Ficávamos até de manhã, bebendo às custas deles. Hoje cá estamos. Eu e o velho Braga.

Entra a moça esperada e todos a olham com a mesma esperança. Um velho mistério toma o ar do Michel. Um silêncio de homens já bêbados, no fim da noite de lembranças. Lá está o aquário do Michel. Os peixes devem ser outros ou, ao menos, lá não está o que era gordo e tinha a barriga lisa – Antônio Maria – deve ter morrido.

Crédito: Mariana Marimon

Crédito: Mariana Marimon

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