Um tango na presença do Divino

Rubem PenzPor Rubem Maria

Juro por Deus. Entrávamos com nossos instrumentos musicais em uma das mais belas igrejas do Rio Grande do Sul para testar o som antes de uma apresentação contratada pelo poder público municipal, quando nos deparamos com um casal que comunga da mesma arte ajustando seu equipamento. Certamente iriam entoar suas canções durante a celebração da Santa Missa que precedia nossa execução. Antes mesmo de conversarmos, desconfiei de que algo não evoluiria bem ao escutar a jovem senhora ajustando os microfones: no lugar dos tradicionais “um, dois”, “teste” ou “som”, ela repetia “Jesus, Jesus, Jesus”. No íntimo, temi.

Quero crer que havia um quase sorriso quando nos cumprimentamos. Indagados sobre o que faríamos ali, a resposta foi uma apresentação musical. De que tipo? Tango. Agora me socorro das imagens clássicas dos filmes: foi como se o céu escurecesse no olhar da mulher. E, do fundo da alma, surgiu como um trovão o eco da mesma palavra: Tango? Dentro da igreja? Na presença do Divino? – apontando com as mãos para o altar. Neste momento, o homem tentou uma tímida conciliação, dizendo que, afinal, seria música. Fuzilado pelo olhar, ela o contradisse ríspida: Música? Tango? Na presença do Divino? Estávamos condenados.

O que seguiu foi um diálogo de surdos. O bandoneonista, um dos mais conceituados do Brasil, entrou na conversa para informar, calmo e conciliador, que já havia executado tangos com orquestra e coral em uma catedral paulista para mil e duzentas pessoas. Mas a senhora não queria mais conversa. Fechou-se em um monólogo de falsa indulgência dizendo que cada um sabe de si, faz o que bem quer e tudo bem. Ao mesmo tempo, intercalava com expressões de horror e choque. Na prática, não passamos o som: não havia clima. O violonista, célebre filho da cidade, foi poupado do constrangimento, pois estava distante e sendo festejado pelos amigos. Retiramo-nos.

Depois da missa, o inevitável reencontro – nós a montar o palco, eles desmontando o seu. A jovem senhora disse para outra mulher que tinha vontade de chorar por causa do que aconteceria, tomando todo o cuidado para que eu a escutasse. Calei-me num misto de respeito e piedade. Resolvi deixar a última palavra com o Divino. Ele fala conosco por vias indiretas e, se houvesse reprovação, viria algum sinal. Ao contrário, o som esteve mais do que perfeito. Violão e bandoneon executaram os temas divinamente e eu percuti a contento – sucesso! Concentrado, não mais vi o casal. Se eles não ficaram para nos escutar até o final, isso sim foi um pecado.

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