O caso do cão boêmio

Por Antônio Maria

Uma das características da Delegacia de Copacabana é o caso policial em si, feito de acontecimentos menos policiáveis da vida. Daí sua crônica ser amena, no mais das vezes sem violência e sem sangue.

Na madrugada deste último plantão, quando o pernoite já se ia tornando tedioso, uma voz de mulher estourou na porta da rua:

– Não pode! Como vocês nao têm quem prender, prendem a mim e a ele.

Ela era mulher exuberante, corpulenta, de voz aguda, afinada em si bemol. E ele? De começo, não o vimos, porque seria um “ele” de tão baixa estatura, que a cabeça não ultrapassava o metro e meio do balcão que nos separava. Tivemos que levantar-nos, para ver “ele”. Que engraçada surpresa, em vez de gente, “ele” era um cachorro policial, de bocarra ofegante e caraça boêmia.

– O  cachorro também bebe… – informou o guarda-civil, para evitar dizer em duas vezes que os dois estavam bêbados. A história desses parceiros é uma das mais curiosaa de Copacabana. Mulher e cachorro, todas as noites, fazem uma pequena ronda nos botequins. Onde chegam, bebem, os dois, da mesma cerveja, no mesmo copo. A mulher se embriaga depressa e, embora não provoque ninguém, faz alaúza, quando provocada. O cachorro, como cachorro não fala, vai ficando por ali, no seu jeito banzeiro, até que a policia os prenda ou algum boêmio os leve para casa. Não sei de história igual, no mundo inteiro. É possível que se inventem melhores. Mas, assim, verdadeira, facilmente comprovável por mais de dez testemunhas, nunca soube de nada igual. Leva-nos a uma série de considerações e pesquisas. Exemplo: Por que bebe a mulher? Para esquecer ou lembrar, como todos os seus semelhantes. Mas, o cachorro? Por que bebe o cachorro? Porque gostou do primeiro copo e, daí por diante, não pôde mais viver sem os outros.

O comissário Nilo tinha dois problemas a resolver. Um mais fácil, o da mulher. Ficaria numa sala ao lado, curando-se da lombeira do álcool. E o cachorro? Nenhuma delegacia do Rio, apesar de inúmeros precedentes que deviam justificar esta providência, cuidou ainda de equipar um xadrez especial para cachorros. Ou, como o caso pedia, uma sala especial, de repouso, para cachorros alcoolizados. Então, enquanto se pensava uma solução de emergência para albergar o “ele”, mulher e cachorro caminharam cabisbaixos e se fecharam, por dentro, no xadrez mais próximo. Em volta, todos rimos de espanto, com alguma emoção. Depois abraçaram-se e dormiram.

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