A foto da última viagem

Tiago PedrosoPor Tiago Maria

Em nosso último final de semana, fomos à praia de Torres assistir ao festival de balonismo. Minha senhoura, a filha mais velha e o namorado. Sim, o namorado. Ainda não havia experimentado de fato uma proximidade tão grande com balões. Nem com genros. Via de regra, adolescentes, principalmente as meninas, não gostam muito da presença dos pais, principalmente a do pai, acompanhando suas intimidades. Entanto, somos pais jovens. Ainda temos vigor para trilhas na tarde e barzinhos à noite, falamos a mesma linguagem de emoticons, tiramos as mesmas selfies. Do alto do morro da guarita, o nascer do sol com seus matizes, junto aquele casalzinho, o mar aos nossos pés, fez-me sentir novamente como aquele casalzinho. Como ela é parecida com a mãe! Os trejeitos, a covinha, o sorriso. A teimosia… E ele, garoto de sorte, feito eu alguns anos atrás, mais alto e mais bonito, é verdade, mas com o mesmo olhar de bobo apaixonado que eu via no espelho dos meus vinte e poucos. Insuflados com ar quente, os balões (e nossos corações), leves e vagarosos, sobrevoavam nossas cabeças. Coloriam o céu naquele momento e a memória para sempre.
O convívio com os jovens rejuvenesce. Rimos muito. Contamos segredos, falamos de assuntos sérios. Descobri coisas da minha filha que nunca imaginaria. Revelamos coragens e medos que os filhos não acreditam termos. Na volta pra casa, uma chuvinha carinhosa nos acompanhava, enquanto os passageiros dormiam ainda sorrindo, vinha pensando como estariam esses jovens dali a quinze ou vinte anos. Será que estariam juntos? Quais profissões escolheriam? Teriam filhos? Tenho outras duas filhas, quem sabe terei outros dois genros, preciso ser jovem ainda um bom tempo.
Mais uma foto pra registrar a exaustão recompensadora dos momentos mágicos. Sem acordá-los, saquei o celular do bolso. Enquanto dirigia com uma das mãos, posicionei o braço para um ângulo mais favorável. Uma curva, aquaplanagem, desespero. Tudo girando, sons de ferro lixando o asfalto, vidros quebrando, gritos. O Pavor assumiu o controle. Com a capotagem, sem o cinto de segurança, minha esposa foi arremessada pra fora do carro. O impacto fez minha menina quebrar o pescoço. Ele, vísceras expostas, olhos arregalados, estremecia no banco de trás. Eu, preso as ferragens, não resisti à hemorragia interna. Morremos nós quatro. Jamais saberei a profissão que minha filha escolheria. Nem se teria netos. Nunca vou conhecer meus outros genros. Não terei a oportunidade de contemplar o nascer do sol com as outras meninas e seus eleitos. O acidente passou no jornal da noite. Talvez não tenham prestado atenção. Essas coisas não acontecem conosco.

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