Somos todos bonsais

Roberto MarquesPor Roberto Maria

A filosofia oriental, presente na concepção dos famosos bonsais, contrastava com aquela espécie de laissez-faire literal, representado pelo estado baldio da figueirinha de minha mulher. Caulezinho longo, folhas grandes, alguns escassos ramos. Pouco havia nela que pudesse suscitar a imagem de sua gênese e fundamentos.

Um fungo pôs fim à justificativa subliminar e acomodada de estar-se aplicando uma pausa ao constrangimento daquela plantinha. Era premente fazer algo que restabelecesse sua saúde e identidade.

Alguns meses de tratamento, em um lugar especializado, modificaram completamente sua aparência. Estava bem mais baixa. Folhas fartas e com viço. Tal exuberância, no entanto, disfarçava um corte radical em seu caule. Ato que, em uma visão leigo-emotiva, estaria mais para decepar do que para podar.

Durante o retorno para casa, minha esposa indagou-me sobre o sofrimento pelo qual poderia estar passando sua pequena cria. Afinal, lhe são impostas tantas contenções e desprovimentos. E tudo em prol de uma estética subserviente a nós.

Entrando ou não no mérito artístico, tentei argumentar, para diminuir sua aflição, que ela contornaria as dificuldades. Que uma beleza ímpar nasceria deste sofrimento. No início, o desconforto. Mas em breve, atingiria um equilíbrio proporcional à sua condição de árvore. Das folhas grandes, agora não tão possíveis, optou por folhas pequenas, mais espalhadas e em maior quantidade para controlar seu balanço de energia. Interessante é que não a conheceríamos plenamente sem um olhar atento às suas atitudes frente à adversidade.

Após uma rápida incursão em busca de mais argumentos solidários, ocorreu-me dizer-lhe: – E, afinal de contas, somos todos bonsais, não é mesmo? O brilho nos seus olhos sinalizou uma concordância.

De forma introspectiva, passei a traçar paralelos, arrolando algumas das tantas restrições humanas. Quando pensei no medo e na preguiça, percebi algo muito diferente. Seria como se não a regássemos. Como se não lhe possibilitássemos o sol. Impedimentos a que nos subjugamos, privados que somos, muitas vezes, de um autoconhecimento que nos traga a luz para ver, agir e crescer.

Hoje, quando a observo, sinto que aquela arvorezinha está, mesmo, muito mais bela. É quando faço uso do lugar comum e murmuro: Eis a arte imitando a vida… Ou seria o contrário?

Anúncios

Um comentário sobre “Somos todos bonsais

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s