Presente

octavio tostesPor Octavio Tostes

 Para Duca, dos correios

Quinta-feira, chego do trabalho 11 e meia da noite.  Welington, o porteiro, diz tem correspondência. Cansado, mochila com a roupa de ginástica, bolsa a tiracolo, numa das mãos a lancheira e na outra a chave de casa, pergunto é urgente? Não. Imagino o que seja e deixo para depois. Obrigado, Boa noite.

Sexta a mesma carga mas o humor melhor, é sexta. Como adivinhara, era o envelope pardo, recheado dos exemplares do “Liberdade de Expressão” , jornal de Miracema (RJ) com que colaboro e d. Ricarda, a proprietária, me manda todo mês. Inesperado é o bilhete. Manuscrito, inclinado, na metade do verso:
“Abraços
Duca – Correios
57 anos de trabalho
adoro suas crônicas!”

Na porta do elevador, um sorriso de não sei de onde da alma me toma por inteiro.

Duca, é claro!, lembro de você. Morena, cabelos lisos, olhos grandes e quietos. Havia outros funcionários mas para mim era o  seu rosto a cara dos Correios. Ainda no sobrado da rua Direita, eu rapaz.  Seu sorriso inspirava a confiança que se esperava daquele serviço nos anos 70 do século passado, tempo pré-internet em que mal havia telefone. Pelo correio seguiam telegramas de urgências, felicitações e pêsames; cartas com saudade, esperanças e dinheiro; e pacotes de encomendas, alegrias e decepções.

No sábado, lembrei quantas vezes postei ali cartas para uma namorada no Rio. Como  me alegrava encontrar respostas na caixa postal 14. E quanto entristecia quando não. Do outro lado do balcão, Duca, discreta, magra e solícita, sorria ou calava. 57 anos de trabalho, mas isso é a idade que completo neste julho! Então, começou quando eu nasci? Domingo perguntei à d. Ricarda pelo Facebook.

Minuciosa, ela atualiza em pinceladas o retrato da Duca que perdi de vista desde que saí de Miracema há 40 anos. O nome, que não sabia: Deocleciana. Entrou nos Correios aos 18 anos em 28/10/1958. Casou com Joaquim Moura. Teve seis filhos, Antônio, Maria Isabel, Marco Aurélio, Meire Aparecida, Luciana e Joaquim. Aposentou, ficou viúva. Tem dez netos. Os Correios a chamaram de volta. Devotada, uma simpatia.

Nesta terça, Duca, festejo meu aniversário. Seu bilhete de carona é meu primeiro parabéns. Termino a crônica esperando que te agrade tanto quanto teu gesto me tocou. E um e outra se juntem ao cortejo das pequenas surpresas que surgindo do nada, encantam o presente – sorriso de criança, voo de joaninha, pouso no ar de beija-flor.

Timming

Felipe Basso II

Todo churrasco era a mesma coisa. Adilson abria a sua Coca Zero e os amigos começavam a zoeira. Diziam que não adiantava beber coca zero e se empanturrar de carne. Porém, Adilson não entendia a lógica de pensamento dos seus amigos. Para ele, os fatos não estavam relacionados. Seguindo esse raciocínio, Adilson poderia levantar questões aos seus amigos, tais como: de que adianta acordar se eu vou ter que dormir novamente? Ou ainda. De que adianta pedir desculpas se é certo que eu vou errar, já que sou humano e falível? Era apenas brincadeira dos amigos, claro. Mas as brincadeiras também tem seu timming certo, como tudo na vida. Adilson sabia disso.

Adilson decidiu que, no churrasco seguinte, o primeiro que fizesse a piadinha teria uma resposta à altura. Dagô foi a primeira vítima. Mal terminou de dizer a frase, Adilson lascou.

– Realmente, Dagô, não adianta tomar coca zero e me empaturrar de carne. Mas, por exemplo, para você tem adiantado sair cada noite com uma mulher diferente e depois reclamar da falta de intimidade?

Todos calaram. O que teria acontecido com o Adilson? Sempre boa-praça, sempre simpático, e de repente, responder de forma tão grosseira logo para o Dagô? O Dagô tem o jeitão dele, mas todos sabem que é o jeitão dele. Os amigos trocaram olhares e decidiram ficar na deles. Possivelmente, o Adilson acordara com o pé-esquerdo ou o chefe ralhara com ele. Tudo bem, afinal, todos têm seus dias ruins.

No churrasco seguinte, porém, a cena se repetiu. A vítima, agora, era o Fabiano.

– Meu caro, de que adianta pagar academia e fumar um maço e meio de cigarros por dia?

Novo silêncio. Nova troca de olhares. Decidiram que todos merecem uma segunda chance. Inclusive, o Adilson. Problema de dinheiro? Ou com a namorada? Ninguém sabia, mas certamente, o Adilson estava descontando nos seus amigos, em vez de se abrir com eles.

Outro churrasco, outra vítima. José Otávio foi a bola da vez.

– Tavinho, teus inúmeros protestos feitos sem levantar a bunda da cadeira tem apresentado algum retorno, alguma melhoria?

Estava decidido. Adilson não seria mais convidado para nenhum churrasco. Afinal, de que adiantaria?

Parábola geniosa

Rubem PenzPor Rubem Penz

O líder do governo e o líder da oposição estão caminhando pelo corredor do plenário da Câmara quando tropeçam em uma lâmpada maravilhosa. O primeiro acusa o oposicionista de tentar derrubar o governo. O segundo aponta falhas na coleta de lixo. Ambos, porém, seguram a lâmpada e a puxam para si. Neste jogo de forças, terminam por esfregá-la nas mangas dos paletós, evocando um gênio que estava adormecido desde tempos imemoráveis.

O gênio anuncia os três desejos de praxe. Como não faz ideia de quem havia libertado, pede para que se entendam com relação aos pedidos. O líder do governo reivindica para si o monopólio dos desejos, uma vez que, de acordo com a própria oposição, a coleta do “lixo” é de sua responsabilidade. O líder da oposição apresenta outra tese: se houve tentativa de derrubada do governo com a lâmpada, ela e seus pedidos pertencem à oposição. O gênio aparta mútuas agressões. Os líderes concluem que o gênio, postado ali entre eles, só atrapalha. Mandam-no para as galerias e puf: lá vai o gênio para uma poltrona distante (cumpriu o primeiro pedido).

O líder do governo sobe ao púlpito para um pronunciamento. Acusa o líder da oposição de barrar os atos do Poder Executivo, que no momento conta com a ferramenta mais eficaz de implementação do bem-estar nacional: uma lâmpada encantada e três desejos. Projeta um país sem miséria, sem fome, sem analfabetismo. Louva a saúde pública que nascerá dos novos tempos; a infraestrutura, o saneamento básico e o sistema financeiro equilibrado. Diz que não admite o tom oportunista e ímpeto destruidor da oposição. Desce ovacionado pelos partidos da base aliada.

Quando chega à tribuna para suas palavras, o líder da oposição alerta para o risco que corre a democracia com o uso eleitoreiro da magia. Pergunta se é seguro franquear unicamente ao governo o poder libertado da lâmpada –  uma manobra que aconteceu, bem ou mal, de forma conjunta. Além do mais, como confiar nas promessas de quem faz tudo o que combatia quando as posições estavam invertidas? Encerrando o pronunciamento, o líder da oposição se dirige ao líder do governo dizendo que age igual a ele no tempo em que era oposição, não podendo, deste modo, ser condenado por isso. O gênio, mesmo sendo um gênio, não consegue acompanhar a lógica ou os aplausos.

Dezenas de parlamentares de diversos partidos se inscrevem para discursar, cada um defendendo o legítimo direito de seu grupo usar o poder de modo arbitrário. Por duas vezes o gênio levanta a mão, alegando ter a saída para o impasse. Em uma, pedem para que se cale, pois é vetada a manifestação das galerias (e ele atende ao segundo pedido) Na outra, solicitam que se retire, ou chamarão a segurança (enfim, o terceiro pedido).

O gênio retorna para a lâmpada convicto de que as instituições democráticas do país estão bastante sólidas. O problema continuará sendo a distribuição de renda, a saúde pública, educação, infraestrutura etc. Sem que ninguém perceba, a senhora do cafezinho recolhe a lâmpada junto com os jarros de água. No dia seguinte, os embates no Plenário da Câmara ganham as manchetes dos jornais. E, no corpo dos periódicos, sai a notícia de que a Mega-Sena foi sorteada para uma mulher da Capital Federal, a mesma que por quem se separou o Jorge Clooney e teve o ex-marido transferido para o Macapá.

Somos todos bonsais

Roberto MarquesPor Roberto Maria

A filosofia oriental, presente na concepção dos famosos bonsais, contrastava com aquela espécie de laissez-faire literal, representado pelo estado baldio da figueirinha de minha mulher. Caulezinho longo, folhas grandes, alguns escassos ramos. Pouco havia nela que pudesse suscitar a imagem de sua gênese e fundamentos.

Um fungo pôs fim à justificativa subliminar e acomodada de estar-se aplicando uma pausa ao constrangimento daquela plantinha. Era premente fazer algo que restabelecesse sua saúde e identidade.

Alguns meses de tratamento, em um lugar especializado, modificaram completamente sua aparência. Estava bem mais baixa. Folhas fartas e com viço. Tal exuberância, no entanto, disfarçava um corte radical em seu caule. Ato que, em uma visão leigo-emotiva, estaria mais para decepar do que para podar.

Durante o retorno para casa, minha esposa indagou-me sobre o sofrimento pelo qual poderia estar passando sua pequena cria. Afinal, lhe são impostas tantas contenções e desprovimentos. E tudo em prol de uma estética subserviente a nós.

Entrando ou não no mérito artístico, tentei argumentar, para diminuir sua aflição, que ela contornaria as dificuldades. Que uma beleza ímpar nasceria deste sofrimento. No início, o desconforto. Mas em breve, atingiria um equilíbrio proporcional à sua condição de árvore. Das folhas grandes, agora não tão possíveis, optou por folhas pequenas, mais espalhadas e em maior quantidade para controlar seu balanço de energia. Interessante é que não a conheceríamos plenamente sem um olhar atento às suas atitudes frente à adversidade.

Após uma rápida incursão em busca de mais argumentos solidários, ocorreu-me dizer-lhe: – E, afinal de contas, somos todos bonsais, não é mesmo? O brilho nos seus olhos sinalizou uma concordância.

De forma introspectiva, passei a traçar paralelos, arrolando algumas das tantas restrições humanas. Quando pensei no medo e na preguiça, percebi algo muito diferente. Seria como se não a regássemos. Como se não lhe possibilitássemos o sol. Impedimentos a que nos subjugamos, privados que somos, muitas vezes, de um autoconhecimento que nos traga a luz para ver, agir e crescer.

Hoje, quando a observo, sinto que aquela arvorezinha está, mesmo, muito mais bela. É quando faço uso do lugar comum e murmuro: Eis a arte imitando a vida… Ou seria o contrário?

Bálsamo

Zulmara FortesPor Zulmara Maria

A pequena capela abrigava um número significativo de colegas de farda, parentes e amigos do Major Ferreira, sempre admirado por sua postura retilínea e dedicação à Pátria.
Yeda, a viúva, abanava-se com seu leque japonês. Exausta, rogava a Deus que o falecido fosse em paz e logo. Aquele calor insuportável e aquele perfume de flores a estavam deixando enjoada. Aguardava ansiosa o momento de retornar a casa e esparramar-se por todos os cômodos. Jogar-se no sofá da sala, colocar os pés sobre a mesinha, sem ouvir a voz irritante do marido a repreendê-la como se fosse criança. Que vá em paz! Enfim só!
Postado no lado oposto da capela, um jovem chamou a atenção da viúva. Era louro, com belos olhos azuis. Não lembrava de tê-lo visto antes. Ele a olhava de revesgueio, demonstrando um interesse especial.
Yeda retirou-se por um instante. Retocou a maquiagem, colocou mais um jato de perfume e ajeitou os cabelos. Voltou ao seu posto, na cabeceira do caixão, com outro semblante. O rapaz sorriu discretamente. E ali, naquele momento, começava um flerte.
Bruno, vinte e poucos anos, bonito e seguro de seus atributos, tanto quanto de suas intenções, aproximou-se pelo outro lado da urna. Apresentou-se e lamentou profundamente a perda do Professor Major Ferreira. Colocou-se ao inteiro dispor da viúva. Estava desempregado e dispunha de todo o tempo livre para lhe fazer companhia nos momentos de solidão. E, se ela desejasse, lembrariam juntos dos feitos do Major.
Por cima da cabeça do falecido, o rapaz esticou a mão para cumprimentar a viúva, passando-lhe um papelzinho dobrado. Ela inspirou profundamente aquele cheiro de homem novo, agradeceu e retribuiu seu olhar selvagem com uma piscadela de cumplicidade.
E o padre chega para a encomendação do corpo. Já não era sem tempo! O calor insuportável da capela começa a subir pelas coxas de Yeda.

Vitrine

A semana começou muito bem. A Vanessa Duarte Monteiro fez o registro e mandou pro blog: o livro do Maria volta ao bar está na vitrine da rede de livrarias Cameron, no Shopping Total, em Porto Alegre.

Se você quiser mandar uma imagem sua com o seu Maria volta ao bar para publicação aqui, por favor, será uma alegria para nós!

maria volta ao bar na vitrine do shopping total