A mesa do café

antoniomaria-c3a0-mc3a1quinaPor Antônio Maria

Menino só sabe que é feio, no colégio, quando o padre escolhe os que vão ajudar à missa, os que vão sair de anjo, na procissão, e os que vão constituir a diretoria do Grêmio Mariano.

Na mesa do café, eramos cinco irmãos. Havia bolo de mandioca, requeijão, bananas fritas, pão torrado e bolacha d’água. Eramos cinco irmãos e, dos cinco, quatro eram bonitos. Vá lá, eu era o feio. Então, por que minha mãe gostava mais de mim? Ela, que nos zelava a todos, que nos conhecia pelo avesso e pelo direito, por que gostava mais de mim? De pena não era, porque pena é uma coisa e amor é outra. Menino conhece. O gesto complacente, por mais carinhoso, é sempre vacilante e triste. O gesto de amor chega a ser bruto, de tão livre, alegre e descuidado.

Eu soube que não era bonito em 1928, no Colégio Marista de Recife. Nunca fui escolhido. Mas sem a menor tristeza, sem concordar até. Aquele julgamento era precipitado, pois (estava convencido) ainda não havia nada de definitivo sobre o bonito e o feio, a beleza e a fealdade. Quais seriam as demarcações? A exata limítrofe, quem seria capaz de determinar? Se não existia a explicação lógica do feio e do bonito, a notícia da minha feiura não me causava mal nenhum. Ao contrário, livrava-me dos tributos que teria que pagar se fosse bonito, ajudando missa e saindo de anjo, à frente das procissões.

Minha mãe gostava mais de mim. Eu sabia, e ela sabia que eu sabia. Em tudo a nossa cumplicidade. Na fatia do bolo, na talhada de requeijão e no sobejo do seu copo d’água. Nossa cumplicidade até hoje existe, quando de raro em raro nos encontramos.

Da mesa do café víamos pela vidraça os canteiros de terra negra e as rosas de maio. Vinha o cheiro úmido da terra molhada, mais que o das pálidas rosas da minha infância.

Minha mãe e eu. Nossos olhos tão parecidos.

Minha mãe só tem um defeito. Não ser minha filha. Sempre foi metida a saber mais que eu.

Só soube que era feio quando amei pela primeira vez. Vi-me, então, corajosamente… e não era como gostaria de ser. No coração, um amor tão bonito. Ninguém iria acreditar, mesmo dizendo, mesmo eu explicando, mesmo eu jurando.

Apaguei a luz, tocava o concerto nro. 3 de Beethoven e, no fnal, apesar do tom ser menor, o lirismo era tão ardente que tudo ficou entendido, entre mim e a minha feiúra: eu a amava e não a abandonaria até a morte.

A foto da última viagem

Tiago PedrosoPor Tiago Maria

Em nosso último final de semana, fomos à praia de Torres assistir ao festival de balonismo. Minha senhoura, a filha mais velha e o namorado. Sim, o namorado. Ainda não havia experimentado de fato uma proximidade tão grande com balões. Nem com genros. Via de regra, adolescentes, principalmente as meninas, não gostam muito da presença dos pais, principalmente a do pai, acompanhando suas intimidades. Entanto, somos pais jovens. Ainda temos vigor para trilhas na tarde e barzinhos à noite, falamos a mesma linguagem de emoticons, tiramos as mesmas selfies. Do alto do morro da guarita, o nascer do sol com seus matizes, junto aquele casalzinho, o mar aos nossos pés, fez-me sentir novamente como aquele casalzinho. Como ela é parecida com a mãe! Os trejeitos, a covinha, o sorriso. A teimosia… E ele, garoto de sorte, feito eu alguns anos atrás, mais alto e mais bonito, é verdade, mas com o mesmo olhar de bobo apaixonado que eu via no espelho dos meus vinte e poucos. Insuflados com ar quente, os balões (e nossos corações), leves e vagarosos, sobrevoavam nossas cabeças. Coloriam o céu naquele momento e a memória para sempre.
O convívio com os jovens rejuvenesce. Rimos muito. Contamos segredos, falamos de assuntos sérios. Descobri coisas da minha filha que nunca imaginaria. Revelamos coragens e medos que os filhos não acreditam termos. Na volta pra casa, uma chuvinha carinhosa nos acompanhava, enquanto os passageiros dormiam ainda sorrindo, vinha pensando como estariam esses jovens dali a quinze ou vinte anos. Será que estariam juntos? Quais profissões escolheriam? Teriam filhos? Tenho outras duas filhas, quem sabe terei outros dois genros, preciso ser jovem ainda um bom tempo.
Mais uma foto pra registrar a exaustão recompensadora dos momentos mágicos. Sem acordá-los, saquei o celular do bolso. Enquanto dirigia com uma das mãos, posicionei o braço para um ângulo mais favorável. Uma curva, aquaplanagem, desespero. Tudo girando, sons de ferro lixando o asfalto, vidros quebrando, gritos. O Pavor assumiu o controle. Com a capotagem, sem o cinto de segurança, minha esposa foi arremessada pra fora do carro. O impacto fez minha menina quebrar o pescoço. Ele, vísceras expostas, olhos arregalados, estremecia no banco de trás. Eu, preso as ferragens, não resisti à hemorragia interna. Morremos nós quatro. Jamais saberei a profissão que minha filha escolheria. Nem se teria netos. Nunca vou conhecer meus outros genros. Não terei a oportunidade de contemplar o nascer do sol com as outras meninas e seus eleitos. O acidente passou no jornal da noite. Talvez não tenham prestado atenção. Essas coisas não acontecem conosco.

A mãe e o fogo

Vanessa ConzPor Vanessa Maria

Minha mãe não suporta o esvair do fogo. Enche o estômago do fogão a lenha fartando-o com suculentos nós de pinhos. Durante todo o inverno, alimenta brasas famintas com satisfação e disciplina.

Em sua residência, os quartos permanecem abandonados de tão gelados. Como frias paisagens inabitadas, diferem da aquecida cozinha, a qual emite ruídos e abriga a todos. Quando a mãe sai, quem fica em casa deve cuidar rigorosamente das chamas sob pena de ser advertido. Quem volta para casa tem o direito de ser mornamente recebido.

O gato se expande esquálido no tapete aquecido. Batatas doces dormem no forno. A chaleira volta e meia uiva carente. O calor constante emitido pela chapa do fogão é aproveitado no almoço, no café da tarde e no jantar.

Eu invejo a simplicidade do seu conforto e a originalidade das suas refeições. Em minha vida de cidade grande, não cabe um fogão a lenha no meu apartamento. E se coubesse, ficaria apagado, ao menos durante a maior parte do dia. Aventuro-me em bufês, enquanto minha mãe colhe suas salsas e escolhe seus feijões. Entro na fila do pão francês enquanto ela suja suas mãos com ovo e farinha.  A distância entre os nossos mundos torna as minhas idas a sua casa aventuras dignas de volta ao passado (ou será futuro?). Sei que ao chegar, vou aprontar a mesa, vou repor as lenhas no cesto, vou cuidar do leite escalando a caneca e secar a louça (que na minha casa ficaria pendente no escorredor, mas que na casa dela logo será reutilizada).

O carinho da minha mãe é medido em graus Celsius e colheres de açúcar. Os abraços dela sempre vieram em formato de pão caseiro. Sei que meus filhos não terão essa sorte, terão apenas a certeza dos abraços convencionais. Mas cada mãe, a sua maneira, sabe manter a casa aquecida, não é mesmo?

O último aviso

antoniomaria-c3a0-mc3a1quinaPor Antônio Maria

Meu caro patrício Mané Garrincha, quem lhe escreve é um de seus maiores fãs, além disso, uma pessoa que deseja sua felicidade e está solidário com você, esteja você como estiver, com quem estiver. Quem lhe escreve é, sobretudo, uma pessoa que entende de azares.

O caiporismo existe, Mané Garrincha, e o Brasil está cheio de caiporas. Já tive um em minha vida. Bastava encontrá-lo e me acontecia o pior. Se estava no mar e ele entrava, eu tinha uma cãibra. Se estava num restaurante, engasgava-me com um osso de galinha ou uma espinha de peixe, mesmo que estivesse comendo um filezinho besta. Foi quando me entreguei aos cuidados de São Judas Tadeu e, de lá para cá, livrei-me de todos os reveses e desaires da sorte.

Em seu caso, se você olhar para trás, verá que tudo está acontecendo depois do passarinho. Seu futebol, seu joelho, seu caso sentimental, tudo encrencou, da noite para o dia. Antes do passarinho (lembra-se?) você fazia o que bem entendia. E dava certo. Deu suas voltinhas com Angelita Martinez e ninguém fez onda. Hoje, você, que sempre dirigiu direito, está atropelando crianças.

Isso assim não pode continuar, Garrincha. O azar existe e a gente só se livra dele quando elimina a causa. E qual a causa de suas desditas? O passarinho. Não porque aquele passarinho seja um prodigalizador de azares. Mas pelas circunstâncias que o passarinho entrou em sua vida, lembra-se?

Garrincha, a meu ver, você ainda tem muita vida e muito futebol pela frente, mas só se tomar uma resolução: abrir a gaiola e soltar o passarinho. Poderia você deixá-lo com a Dona Nair. Mas, coitada, ela e as meninas iriam sofrer as “vibrações” deste terrível Mainá, que entrou em seu destino na hora em que você era um deus… e, no dia seguinte, amanheceu um pobre-diabo. Examine cada coisa que lhe aconteceu e sole (mesmo que isto lhe doa) esse passarinho, que está destruindo sua sina e sua vida.

Dois dedos de prosa com Machado de Assis

octavio tostesPor Octavio Tostes

Reencontrei Machado de Assis no Facebook. E da melhor forma possível: lendo sua prosa na página “O Rio de Machado de Assis”. A página faz parte do projeto de mesmo nome do Museu de Arte do Rio (MAR), dedicado a desvendar as ligações entre a cidade e a obra do autor. Nos posts um Machado redivivo conta a história de ruas e logradouros do Rio de Janeiro da virada do século XIX para o XX entremeada com lembranças de seus personagens.

Fotos e pinturas ilustram os textos, cartas breves em tom de crônica. A conversa – arguta sob a máscara das amenidades – alcança o presente. Como nesta menção aos aplicativos do projeto para celulares: ”agora aquilo que escrevi vai estar mais vivo, com as pessoas podendo revisitar a minha obra e dando ‘check-in’ (tive uma certa dificuldade para entender o que é isso) quando chegarem à Praia da Glória, tão importante para Dom Casmurro e sua Capitu, ou à Tijuca de ‘Iaiá Garcia’”.

Certa manhã ele postou que os comentários dos amigos do “mundinho azul” – como se refere ao Facebook – o estavam envaidecendo; e que olhando-o de soslaio sua amada  Carolina o reepreendera por deixar-se picar pela mosca azul.

Comentei:

“Prezado Joaquim Maria,

Permita-me tratá-lo pelo nome com que assina seus posts.

Faço-o inspirado em Nelson Rodrigues que dizia ser todo leitor um desconhecido íntimo.

O Antonio Prata escreveu dia destes uma crônica sobre isto. Contou que depois de conviver a distância com Rubem Braga por vinte anos, imaginou-se frente a frente com o Urso na lendária cobertura de Ipanema. Mas não se deu bem com a casmurrice do ‘velho Braga’. Felizmente, logo encontrou Ariano Suassuna e João Ubaldo Ribeiro – tão seus desconhecidos íntimos quanto aquele – e esbaldaram-se em conversa mais que loquaz no Antonio’s com Vinícius de Moraes e Millôr Fernandes.

Perdoe o volteio. É que você, mestre, traz à lembrança outros grandes cronistas que desdobraram este gênero onde também pontificou (sua estatura justifica a palavra). Tudo para agradecer-lhe a alegria que me tem proporcionado quando, após o café da manhã, trago a cigarrilha e passeio por suas memórias narradas em prosa magistral.
Dona Carolina que me perdoe também, e com todo respeito, mas você bem pode se dar ao luxo destes contidos acessos de vaidade.
Meu abraço agradecido e admirador,

Octavio”

Qual não foi minha surpresa quando, à noite, entrei no Facebook na redação em que trabalho e li:

O Rio de Machado de Assis:

Caríssimo, Octavio Tostes, lágrimas de emoção derramam-se pela homenagem. O senhor conseguiu uma grande proeza: deixar-me sem palavras. Mas permita-me deixar-lhe um abraço carinhoso. Do seu Joaquim Maria.”

Sem palavras, saí da página. De fininho… menino desconfiado de que fez arte.